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Nasceu entre os pobres e agora visita o palácio

No dia 25 de dezembro de 2012, após celebrar a missa de Natal no Arsenal da Esperança, Dom Odilo Pedro Scherer vai até o pátio e, diante de todos os presentes, abençoa o enorme presépio feito por um grupo de acolhidos da casa, pintado sobre portas velhas que foram encontradas no lixo. Nele, o detalhe que mais chama a atenção é Maria, representada como Nossa Senhora Aparecida.

Em dezembro de 2013, quase um ano depois, esse mesmo presépio está exposto no Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo do Estado de São Paulo, em uma exposição de presépios brasileiros promovida pela Curadoria do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo.

A história dessa obra de arte – criada a partir de simples materiais descartados, mas que mereceu a bênção do Arcebispo de São Paulo e um lugar em uma exposição importante –começou muito tempo antes, deixando uma marca na vida daqueles que a produziram.

Tudo começou quando conhecemos melhor o Jasson, que em meados de 2012 encontrou acolhida no Arsenal. Ele nos dizia: "Eu sei desenhar!". Sabíamos que algumas dificuldades tinham comprometido a sua vida e que agora ele lutava para resolvê-las.

Uma tarde, ele começou a desenhar em uma folha de papel alguns rostos desfigurados que, segundo o que ele nos dizia, habitavam continuamente os seus pesadelos. Eram rostos cheios de dor, desenhados com traços e pinceladas fortes. "Nunca frequentei uma escola de arte, mas desenhar sempre me ajudou a esquecer o sofrimento que eu vivia...". Seus desenhos impressionavam a todos nós.

Nasceu, então, a proposta: "Faltam poucas semanas para o Natal. Por que você não desenha a cena do nascimento de Jesus?". Jasson nos confessa que nunca desenhou imagens sacras, mas seus olhos se iluminam e ele aceita.

Em um depósito de lixo, um de nossos acolhidos encontra grandes portas de madeira, as coloca sobre os ombros e as leva ao Arsenal. Parecem as telas perfeitas para pintar quadros com os personagens do presépio. Com alguns carrinhos, pegamos todas e as levamos para a sala de arte. Para conseguir as tintas, fazemos uma coleta entre os voluntários. Depois de as termos preparado, as nossas tábuas estão finalmente prontas para receber as imagens.

Nesse momento, inicia-se a fase do desenho. Jasson começa a traçar os contornos, que devagar tomam forma e se transformam em expressões, roupas e paisagens. Ao redor dele, muitos outros jovens que vivem conosco ficam fascinados por sua habilidade e permanecem durante horas observando enquanto ele desenha. Assim, acontece que alguns dizem: "Posso ajudar também?". Muitos querem aprender, ajudar, e, em um curto espaço de tempo, forma-se um grupo com cerca de quinze pessoas que passam dias inteiros pintando.

Só aí começa, no entanto, a verdadeira "batalha" contra os pensamentos mais sutis: "Muitos grandes artistas, para criar as suas obras, usavam drogas ...". Muitos riem, concordando. Essa frase soa quase como uma justificativa para aqueles do grupo que usam álcool ou drogas. Porém, um rapaz levanta a voz e diz: "Essas obras podem até ser bonitas, mas são de uma beleza de plástico. O olhar de Deus nunca poderá ser transmitido através dessas obras”. Nasce assim um novo desafio: "Por que não tentar, durante a preparação do presépio, não usar drogas?". Todos concordam, sérios. Serão no total dois meses de trabalho. Para muitos, uma eternidade! Cada dia traz o desafio de recomeçar, de não desistir. Um encoraja o outro. O grupo aumenta...

O primeiro painel a ficar pronto representa Maria. Mas é uma Maria especial, é a "Aparecida". É negra, com olhos grandes e transparentes. É, talvez, a primeira vez que essa representação de Nossa Senhora faz parte de um presépio. Depois também José fica pronto, e em seguida o menino Jesus na manjedoura. Todos têm os mesmos olhos grandes, o mesmo olhar intenso que vai direto ao coração. Um pedreiro amigo, que está de férias, constrói o piso de tijolos e nos ajuda a instalar todos os painéis. Enquanto isso, um outro grupo se ocupa da construção da cabana.

A cada visita ou celebração feita dentro do Arsenal da Esperança, centenas de pessoas, ao entrar no pátio, ficam encantadas diante desse presépio. Elas sentem que ele não é de plástico, mas que fala de um Deus que se fez carne e nasceu verdadeiramente em meio a nós. Jasson dá muitos autógrafos, sorridente.

O encantamento diante das velhas portas transformadas em uma maravilha
não atingem só os visitantes do Arsenal. Uma equipe do Museu de Arte Sacra de São Paulo também reconheceu o valor dessa obra e a indicou para fazer parte da mostra de presépios realizada todos os anos pela Curadoria do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo. Justamente em 2013, a exposição reúne presépios brasileiros. E que presépio poderia ser mais brasileiro do que um que traz justamente a figura de Nossa Senhora Aparecida como a Mãe do Menino Jesus?

Além desse nosso presépio, pintado por Jasson Manuel da Silva com a preciosa colaboração de outros acolhidos da casa, a exposição também recebe cerca de cinquenta obras provenientes do Museu de Arte Sacra de São Paulo, do Memorial da América Latina, do Pavilhão das Culturas Brasileiras do Museu da Cidade de São Paulo e da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Uma mais bonita do que a outra, todas de uma beleza verdadeira, nunca de plástico.

Vale a pena conferir!

Local: Palácio dos Bandeirantes - Avenida Morumbi, 4.500 - Portão 2
Data: até 5 de janeiro de 2014
Horário: de terça-feira a domingo, das 10h às 17h
Entrada: gratuita e acessível a pessoas com deficiência
Informações: (11) 2193-8282 ou Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Grupos acima de 10 pessoas devem agendar a visita através do site 
Todas as visitas são acompanhadas por educadores.